Philippe Fernandes

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O pior aniversário de todos

Lembro que fui acordado pelo telefone para mais um dia normal de trabalho daquele início de ano. Minha mãe queria saber se tinha algum evento para cobrir em Itaipava, porque parecia que o centro do bairro estava todo alagado. Tinha ouvido pelo rádio. Coisa de cinco minutos depois, meu pai liga, dizendo exatamente a mesma coisa. Achei estranho, mas… às vezes Itaipava alaga mesmo, acontece.

Assim começou o meu 12 de janeiro de 2011. Uma data que, acredito, ficará marcada para todos, mesmo os que não foram envolvidos, de alguma forma, na tragédia. Guardadas as devidas proporções, é o mesmo que ocorre com o 11 de setembro: todos se lembram onde estavam e como receberam a notícia.

Mais pela sucessão de informações: sabíamos que o centro de Itaipava estava alagado, que algumas barreiras haviam caído, que o nível do rio estava mais cheio que o normal. Mas, apenas ao longo do dia, soubemos que se tratava de algo muito mais grave. Os jornais locais de meio-dia anunciavam a destruição de Nova Friburgo, incluindo o Centro, e dos distritos de Teresópolis. As edições online dos jornais mostravam as impressionantes imagens de bairros inteiros submersos pela enxurrada. Só a partir daí todos tiveram a real dimensão do problema: era a pior tragédia natural da história do Brasil. Comentei, certa vez, no blog, a tragédia de 1988. O título dizia que os efeitos daquelas chuvas foram “maiores do que a nossa geração poderia imaginar”. Pois é… Acabamos sentindo o efeito de algo ainda pior e abrangente.

O que se viu, depois, foi um festival de verbas enviadas e um show de solidariedade. Sinceramente, não lembro de ter visto a mobilização de todo o país para arrecadar fundos, mantimentos, enfim… tentar ajudar, de alguma forma, os vitimados. Foi emocionante ver, no primeiro sábado após a tragédia, o centro de Itaipava, já recuperado, completamente congestionado por pessoas que queriam fazer suas doações e colaborar como voluntários. Da mesma forma, o governo federal liberou uma pá de verbas emergenciais.

E é aí que começaram os problemas. Que a reconstrução seria MUITO difícil, todos sabiam. E não apenas a recuperação estrutural: tem a econômica, a auto-estima da população… E, no fim, tanto as áreas atingidas de Teresópolis, quanto Friburgo, quanto o Vale do Cuiabá continuam exatamente do jeito que estavam. Quase nada foi feito.

Da mesma forma, a falta de ação do governo do Estado e o cinismo do governador, tentando jogar tudo para os prefeitos como se ele, que não construiu uma casa no interior, não tivesse nada com isso, é espantosa.

A segunda tragédia

Logo depois da comoção, veio a segunda tragédia. A tragédia da roubalheira, do descaso, do cinismo, da falta de humanidade. Passaram-se dois, três, seis meses e a situação continuava exatamente igual. Sequer pontes provisórias foram construídas. O povo, já atordoado, não tinha onde viver: não foi erguido um tijolo das casas populares prometidas e a distribuição de aluguéis sociais era uma zona.

Claro, já havia uma crise não alardeada, especialmente nas duas cidades onde houveram os grandes escândalos (e, façamos justiça, devemos tirar Petrópolis dessa, pois nada surgiu até agora – apesar da situação no Vale do Cuiabá não ter mudado muito): Friburgo nem prefeito tinha. Votou em um cidadão – Heródoto Bento de Mello – que já estava com oitenta e poucos anos. Sua principal proposta era um trem suspenso pelos rios da cidade. Ganhou as eleições, que, pra dizer o mínimo, pouco preparo tinha.

Em Teresópolis, Jorge Mario Sedlacek ganhou as eleições sob muita esperança. A cidade elegia, depois de vinte anos, um prefeito que não era ligado ao ex-prefeito (e preso no fim do ano, por ligação com o jogo do bicho) Mario Tricano. Era, enfim, uma alternativa viável, jovem, que unia a cidade, contra os desmandos, o atraso econômico e social, a favelização da cidade.

Pois bem: a emenda saiu pior que o soneto. Em Teresópolis, a situação beira o surrealismo: a propina para obras públicas, que JÁ EXISTIA, foi aumentada NA SEMANA da tragédia. Na “suíça brasileira”, fraudes em licitações deram o tom do processo que se instalou na cidade.

Por fim, após CPIs e as denúncias pipocarem na grande imprensa, a justiça afastou o prefeito de Nova Friburgo. Em Teresópolis, o drama foi ainda mais profundo: os vereadores, em sua grande maioria governista, cassaram o prefeito. Assumiria o vice, Roberto Pinto, respeitado por todos na cidade, mas… ele teve um infarto dois dias depois da posse.  Agora, o prefeito é o presidente da Câmara, Arlei Rosa – que deveu sua eleição ao posto mais alto do Legislativo a… Jorge Mario.

Em Petrópolis, a bem da verdade, se há uma crise, é pela inação do prefeito e a instatisfação popular com o mesmo. Mas nada, até agora, chegou ao campo moral. “Só” ao resto. E, claro, isso gerou uma situação de desalento. A população não tem ninguém que possa confiar, nenhuma referência, nenhuma perspectiva de futuro. É a seqüela mental mais grave, com toda a certeza.É a seqüela mental mais grave, com toda a certeza.

Reconstrução de tudo

Infelizmente, as palavras continuam sendo as mesmas do dia da tragédia: força, superação, reconstrução. Porque ainda precisamos usá-las. O jeito é cobrar, torcer, rezar e, principalmente, não apostar em falsos messiânicos e em qualquer promessa exequível apenas na computação gráfica. Outubro é agora.

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